sexta-feira, 26 de junho de 2020

Afinal, onde fica "A casa do sol nascente" de Nova Orleans?

Desde que eu ouvi a versão de 1964 deste som gravada pela banda The Animals, eu não conseguia parar de pensar e teorizar sobre qual seria a real localização ou o que de fato era esse lugar citado no grande hit sessentista "The House of Rising Sun", uma música rondada de mistérios e especulações que até hoje se veem quase impossíveis de se confirmarem.

Para começar, vou introduzir a você essa maravilha, para vos que nunca ouviu essa obra prima do rock n' roll dos anos 60. Preste atenção principalmente na letra, mas também no solo de órgão que eu acho simplesmente sensacional.


Bem, então, para começar essa longa jornada para tentar compreender esta música, preciso informar que até hoje não se tem notícia de seus reais compositores, e nem em que ano precisamente a mesma surgiu. Sabemos que a música, originalmente, era um blues chamado de "The Rising Sun Blues" e que, supostamente, a letra e os acordes menores teriam ganhado vida entre os anos 1700-1800, enquanto os franceses estavam ocupando a região de Nova Orleans, e alguns ainda dizem que foram os migrantes franceses que apresentaram a música ao cancioneiro popular do local, mas nada confirmado. Se entende que a música foi passada de "boca a boca", por geração em geração, na cultura popular Africana/Americana, já que não existe nenhuma gravação ou nota dessa música antes do séc.XX. 

Há diversas especulações sobre o que seria, de fato, a "casa do sol nascente". Alguns chutam que é um termo designado para pubs ingleses da época, outros relacionam à apenas a fachada do local (que poderia ter o formato de sol nascente) para justificar outras ainda mais loucas teorias que iremos falar mais para frente. Confira abaixo uma versão de 1933 do blues "The Rising Sun Blues":


Levemente diferente, não? O arranjo é muito mais blues que o da versão que todos conhecem, além da letra ter sido alterada depois de todos esses anos. Uma curiosidade intrigante sobre a canção é que, no início, a maioria de intérpretes da "The Rising Sun Blues" eram femininas! Sim, isso pode justificar muita coisa da música. Além do mais, quando pesquisamos pela letra original no Google, aparece uma versão que em vez de "poor boys" é "poor girls", além de outros versos que dão ainda mais luz à teoria de que a protagonista é uma mulher, o que daria mais sentido à letra. Confira a letra original, ou pelo menos, a mais antiga que se conhece:



Analisando essa letra, podemos notar algumas diferenças com a versão do The Animals, que por sinal, deixou a letra muito mais ambígua do que ela, de fato, é:

- É uma mulher que se arrependeu de algo que ela fez.
- Conta a história de uma mulher que tem um marido que bebe muito em Nova Orleans, e que a única coisa que ele precisa é de um baú e uma mala para, possivelmente, ir embora ou fazer negócios, muito ambíguo.
- Essa versão não cita nenhum pai que era um homem de apostas ou algo do tipo, apenas um marido bêbado.
- Tem mais versos de lamentação pela vida que ela tomou nesta versão.

Ou seja, essa versão é muito mais simples, curta e direta que a da versão mais popular. Nesta versão, podemos ver que há também semelhanças com a versão sessentista, como o de ela ter o pé na estação e outro no trem, de o eu-lírico dizer que vai passar a vida inteira com a bola e corrente na Rising Sun. Com isso, podemos tentar tirar algumas conclusões:

A letra original fala de uma moça que se desviou do rumo correto que ela vinha seguindo aconselhada pela sua mãe e se casou ou está em relacionamento sério com um bêbado, que fica andando pela cidade e bebendo muito. Ela tenta fugir em um trem, mas por alguma razão, talvez a questão moral cívica da época, resolve ficar com seu marido com uma bola e corrente, ou seja, uma metáfora para estar presa no matrimônio, e "passar o resto de sua vida" na Rising Sun, que aqui podemos supor que é um bar, um pub ou um prostíbulo, talvez. Essa versão é muito mais simples, não? E o pior, é que esta versão faz sentido quando vemos os pubs e bares ingleses de Nova Orleans da época, que neste abaixo, por acaso, possui em suas janelas o formato de um sol nascente!

The Fascinating History of New Orleans' Oldest Bar

Matamos a charada, não?! 

Eu sei que há trilhões de teorias que, por exemplo, a Rising Sun poderia ser uma prisão feminina (cujo o eu-lírico teria ido parar lá por assassinar seu pai ou marido apostador), ou simplesmente um prostíbulo, um bordel (já que há indícios de bordéis e bares com o nome de "sol nascente" naquela época em Nova Orleans), e há também quem diga que o local era um retiro de freiras (aquele lugar onde as meninas se preparam para serem freiras, sabe?). Anyroad, a música continua sendo muito discutida e fascina a muitos (inclusive eu) por ser um pedaço da história norte-americana documentada em forma musical cuja sua origem continua sendo um mistério, mesmo após todos esses anos.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Os Dândis do Rio Grande do Sul.

Confesso que escrevo este artigo por conta da minha paixão inabalável pela banda Engenheiros do Hawaii, um dos meus primeiros contatos com o Rock Gaúcho que enfervecia nos anos 80 e continua tendo uma cena que perdura até os dias atuais. Me lembro bem das primeiras vezes em que ouvi as letras do Humberto Gessinger, o baixista e letrista da banda. Me lembro como pensei que as letras eram muito bem trabalhadas e guardavam de sentidos que, na época, eu sendo apenas uma criança não consiga compreender muito bem. Mas, quando comecei a crescer, comecei a me identificar cada vez mais com o grupo e, consequentemente, minha admiração pela banda aumentou cada vez mais até chegar ao ponto de, atualmente, eu considerar a minha banda brasileira predileta, disputando de maneira acirrada com Legião e Barão. Mas, essa introdução sentimentaloide era somente para conduzir para eu falar, em um papo mais livre, sobre meu álbum predileto dos Engenheiros: A revolta dos dândis (1987).


Entre os outros e vocês

Antes de realmente falar do álbum, vou falar um pouco do contexto que este álbum veio ao mundo. Era 1986, quando os Engenheiros fazem sua estréia solo, pois, a banda já havia participado em 85' de uma coletânea de iniciantes grupos de rock que emergiam no RS, a Rock Grande do Sul, onde não só apenas os estudantes de Arquitetura estrearam mas, também Os Replicantes, TNT, Garotos de Rua e DeFalla, bandas essenciais para o Rock Gaúcho da época. O disco de estreia "Longe Demais das Capitais" (1986) até que foi bem para uma banda que estava bem longe das capitais e polos urbanos que produziam os artistas do momento (O Sudeste, em geral) e estava apenas começando. Eu, particularmente, amo este primeiro disco da banda, tanto que, algumas de minhas faixas prediletas deles está neste disco como: "Crônica" (que acho uma letra genial e ainda muito atual), "Toda Forma de Poder" (não preciso comentar nada, só um magnífico clássico), "Sopa de Letrinhas", "Todo Mundo é uma Ilha" e por aí vai. Ouso dizer até que este álbum é um dos que mais retratam o período em que foi escrito, com citações à Guerra Fria, a polaridade entre poderes (Fidel e Pinochet tiram sarro de você que não faz nada) e um pouco do cotidiano e personalidade do jovem da época, vide "Todo Mundo é uma Ilha" ou "Eu ligo pra você". Pois bem, a primeira música do álbum virou até tema de novela global, "Hipertensão", do mesmo ano. Apesar de todo esse sucesso, por conta de divergências com a banda, Marcelo Pitz, o baixista do disco sai e Humberto fica mais a vontade para tomar o baixo para si, se concentrar cada vez mais nas letras e chamar o guitarrista Augusto Licks, que já era mais velho que a banda, para assumir a guitarra.


Por conta dessa mudança na banda, o segundo disco chegou com uma sonoridade bem menos pesada que o primeiro, apostando cada vez mais em linhas de baixo pegajosas (no bom sentido) e uma carga lírica cada vez mais intensa. Por isso, o disco tem uma sonoridade bastante Pós-Punk, me lembrando muito Joy Division, começo do New Order, Gang of Four, PIL e toda aquela ruma de bandas inglesas que vieram do início e meio dos anos 80. O disco já abre com um grande clássico: "A Revolta dos Dândis I", que nos apresenta diversas dualidades e referências ao livro de Albert Camus, "O Estrangeiro". Aliás, Camus foi muito importante para essa obra, pois, foi um dos capítulos de seu livro que deu nome ao álbum. Em seguida temos a "power-ballad" (sim, entre aspas) "Terra de Gigantes", uma das minhas prediletas, que, de acordo com o próprio Humberto, brinca um pouco com o pensamento punk vigente em várias bandas da época, de ser, supostamente, "contra o sistema" sendo parte e contribuindo para o mesmo. Seguindo possuímos o inesquecível clássico "Infinita Highway", a favorita do público que é, uma das minhas menos prediletas do álbum como um todo (perdão Humberto). Com isso, possuímos ainda a melancolia de "Refrão de Bolero", com a rima mais 'sacana' que já ouvi em toda minha vida mas, muito boa a canção, uma das melhores da obra; ainda nessa linha, possuímos choques de realidade como "Além dos Out-Doors" e "Filmes de Guerra, Canções de Amor", que CONTINUAM SENDO ATUAIS, felizmente ou infelizmente. E para finalizar nesta análise mais aprofundada das faixas, a minha favorita: "Vozes", uma das que eu mais me identificava e gostava quando era adolescente! A letra de "Vozes" é de uma profundidade e sinceridade que eu nunca tinha ouvido em quase nenhuma banda brasileira até o momento, uma verdadeira obra de arte da música brasileira. Obviamente, temos outras músicas ótimas como "Guardas da Fronteira", "Quem tem pressa não se interessa" (EM ANDAR RÁPIDO DEMAAAAIS) e "Desde Aquele Dia".


Mas, enfim! Um álbum incrível que continua sendo necessário e relevante na nossa realidade atual. Principalmente, entre pessoas que nem eu que, continuam se sentindo estrangeiros e passageiros de algum trem que não passa por aqui e não passa de ilusão...


BÔNUS: encontrei na Internet esta pérola que eu mesmo não havia ouvido até então, as demos do álbum "A Revolta dos Dândis"! E de quebra, ainda vou colocar aqui a demo do "Longe Demais das Capitais" que eu já conhecia desde os meus 11 anos! Esses links são do YouTube, aproveitem!


Demos do Revolta: https://www.youtube.com/watch?v=1m-fJIRct3E

Demos do Longe Demais das Capitais: https://www.youtube.com/watch?v=qOvbB6cVsw4

sábado, 30 de maio de 2020

A ascenção e queda de Ziggy Stardust completam 48 anos! | Review da Vez

Este ano, dia 16 de junho, vai completar 48 anos que o rock star alienígena mais famoso e reconhecido do mundo, Ziggy Stardust, fez a sua glamorosa estréia na pele de David Bowie no álbum "The Rise and Fall Of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars" de 1972. Para compreender este disco que se tornou um clássico absoluto e relevante, precisamos compreender, não só, o que se passava na cabeça genial e inovadora de Bowie naquele início de década, quanto também o que se passava no mundo, tanto no meio musical, quanto no meio real mesmo... e para isso, vamos viajar para o Reino Unido do século passado...

The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars ...

No ano de 1971, ou seja, um ano antes da gravação e lançamento oficial do álbum de Ziggy, Bowie estava trabalhando em outro álbum que viria a ser um álbum bem elogiado pela crítica da época chamado Hunky Dory, um álbum bem mais puxado ao Art Rock, tendo pouquíssimas referências ao rock n' roll cru que viria em seguida, mas, durante as gravações do mesmo, David já possuía em mente algumas músicas como Moonage Daydream ou Hang on to yourself que fariam parte de seu próximo trabalho. Além disso, o desejo de Bowie por fazer algo diferente, algo mais elétrico e alto, vinha das observações da cena de rock na época, que estava cada vez mais cedendo às novas bandas que produziam o que chamavam, na época, de heavy metal, hard rock, ou seja, uma sonoridade mais distorcida e pesada. Tais bandas como Led Zeppelin, Deep Purple, Black Sabbath, Cream, Alice Cooper, Jimi Hendrix Experience estavam exercendo uma ampla influência no gênero e eram as "novidades" da época, se podemos chamar assim. Com isso, Ziggy Stardust, um alienígena roqueiro transgressor, sexualmente promíscuo e de natureza selvagem começou a ganhar forma.

O álbum, ao contrário do que muitos pensam, não é uma opera-rock como, por exemplo, o Tommy do The Who; apesar de ele apresentar a história de Ziggy em faixas como a melancólica "Five Years", na qual justifica a motivação para o mesmo descer até aqui, o sucesso radiofônico de "Starman", e a última faixa do álbum, a também melancólica power ballad "Rock N' Roll Suicide", o disco vai além de simplesmente contar uma história contínua; nos dá a impressão de profundidade e intimidade ainda maior sobre a personalidade do alien, em faixas como "Moonage Daydream", "Suffragette City" e a própria "Ziggy Stardust" nos dizem muito mais sobre a personalidade do mesmo do que simplesmente uma história. De maneira geral, o álbum é de hard rock, com alguns momentos épicos, especificamente no início e no final. 

Riffs de guitarra estridentes que incendeiam os ouvientes, letras que falam de paz, amor, sexo, festas e rock n' roll, uma voz esganiçada e exagerada com muito glamour e atitude - assim, podemos definir o álbum de Ziggy Stardust. Um grande clássico que será lembrado, não somente pelas mudanças sociais que provocou (fica para outro post), mas, também por ser profético e afrente de seu tempo em vários momentos. Nem preciso citar a grandiosidade de David Bowie na cultura pop, não? A sexualidade difusa de Ziggy, que se confunde com a da Geração Z, os sons experimentais e até mesmo, influências a curto prazo (vide a onda Glam nos anos 70 e 80, com bandas como T.Rex ou Motley Crue) fazem com este álbum seja lembrado mesmo quase 50 anos de seu lançamento! Viva Ziggy Stardust! Viva David Bowie!

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Venha descobrir do "Fruto Proibido" com Rita Lee & Tutti-Frutti! | Review da Vez

Estes últimos dias, tenho me dado o trabalho de pesquisar cada vez mais a respeito do Rock no Brasil antes do BRock, o movimento de rock brasileiro que invadiu as rádios dos anos 80 e, é bastante curioso como as bandas de rock n' roll brasileiras dos anos 70, como "O Terço" ou "Casa das Máquinas" não receberam a devida atenção da mídia da época, que preferiam ficar sempre nas amarras da MBP de Caetano ou os versos românticos de Roberto Carlos. Mas, mesmo o Rock brasileiro da época não estando tão em voga naquele momento, com exceção de Raul Seixas ou alguma mistura maluca de MPB com a psicodelia de Hendrix, a cantora Rita Lee, que, na época, acabava de sair de sua primeira banda, Os Mutantes; e seu conjunto de apoio Tutti-Frutti conseguiram seu lugar ao sol  com o lançamento do primeiro estouro da carreira solo da ex-Mutante: Fruto Proibido, pela Som Livre em 1975.

Este disco é um estouro do começo ao fim, canções cativantes com um hard rock com pitadas pop que transformaram (ainda mais) a carreira da jovem Rita. Este álbum possui uma quantidade incrível de clássicos, desde a faixa título do disco, que nos convida a provar do fruto proibido; o hino feminista "Agora Só Falta Você", o rock puro de "Esse Tal De Roque Enrow" (co-escrita com Paulo Coelho, o mesmo amigo de Raul), as linha de guitarra de "Luz del Fuego", que retorna novamente as raízes feministas do álbum e, não poderíamos esquecer desta música, a faixa que encerra o disco: Ovelha Negra, que apareceu na novela global "Mulheres de Areia" e se tornou um hino e um dos maiores sucessos de Lee.

Rita Lee
Como já dito anteriormente, o disco é muito inspirado no hard rock, glam rock setentista que acontecia no exterior, muito influenciado pelas grandes bandas da época como os riffs estridentes dos Rolling Stones, a bateria pulsante característica do John Bonham do Led Zeppelin mas, além dessas podemos citar muito mais influências neste disco como David Bowie, em sua fase Ziggy Stardust, T-Rex, The Who entre vários outros da nata do hard rock 70. 

Desde a primeira faixa até a última faixa podemos dizer que é um disco inesquecível e um clássico de fato, além de representar várias lutas e causas importantes para época, que não poderiam ser citadas e executadas de um jeito tão característico quanto o de Rita Lee. Mais tarde, Rita faria vários outros hits, na maioria deles muito mais pop mas, lembre-se que, o primeiro pontapé da carreira da rainha do rock brasileiro foi este disco fenomenal que vale a pena ser ouvido até os dias atuais.


Nota: ⭐⭐⭐⭐