sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Revisitando o Led Zeppelin II, o álbum de "heavy-metal" do Led Zeppelin.

Em 1969, o sonho dos flower boys e flower girls já havia acabado. O Festival de Woodstock já tinha acontecido e deixado como legado milhares de jovens ansiando por um futuro repleto de flores, amor e compaixão, enquanto esses enlameavam-se ao som de boas músicas e sob o efeito de doses cavalares de LSD; Jimi Hendrix e Janis Joplin morreram de overdose (predestinando o futuro de Jim Morrison), a morte de Sharon Tate por parte da família Manson também. Enfim, todo aquele teatro hippie, completamente alienado da realidade, diga-se de passagem; foi completamente incendiado pelas chamas de um novo tempo que estava começando em todos os âmbitos, inclusive o musical.  

Se os Beatles foram coroados como os porta-vozes da juventude "paz e amor", os responsáveis pela expansão sonora que abalou e definiu a década de 60, os caras do Led Zeppelin foram elevados à categoria de deuses mitológicos que demoliram quase tudo o que restava da década passada. Aquelas músicas psicodélicas regadas à viagens lisérgicas e coloridas derreteram e deram lugar aos riffs de guitarra arrasa-quarteirão (por conta do grande Jimmy Page), solos avassaladores de 30 minutos (yes, Bonham!) servindo como palco de fundo para letras predatórias e agressivas com altíssimo teor sexual surrupiadas, em sua maioria, do blues, de uma forma nunca antes vista.

O primeiro disco da banda, o Led Zeppelin (1969), já causava esse impacto nuclear, levantando a sobrancelha até de músicas de blues rock renomados da época (como Eric Clapton, como exemplo) pelo penetrante volume dos amplificadores e sonoridade, com um destaque especial para a bateria, nunca antes gravada com a ambiência necessária para torná-la um instrumental tão vital quanto a guitarra, por exemplo. No entanto, por mais que o álbum tenha impressionado muitos, também atraiu um certo desdém, especialmente da crítica e de certos artistas, que acusava a banda de ser, simplesmente, mais uma bandinha britânica com som calcado no blues (nenhuma novidade à época), com inumeráveis plágios (sim, os três primeiros são cheios deles) ou uma versão desanimada do Cream

Apesar de tudo, o primeirão vendeu bem, especialmente nos EUA, levando-o ao primeiro lugar da Billboard.

E então, veio a continuação no mesmo ano: o Led Zeppelin II (1969). Já imersa em turnês ininterruptas na América, drogas, quartos de hotéis e groupies, a banda teve pouquíssimo tempo entre as datas agendadas e seus compromissos para planejar uma continuação à altura da sua estonteante estreia, mas o que deu para espremer desse cenário caótico já foi o suficiente para compor e gravar um dos melhores álbuns de rock da história.  


O que o Led Zeppelin fez nesse álbum foi, trocando em miúdos, ampliar e continuar a revolução que eles haviam começado anteriormente. Os riffs estavam ainda mais pesados, as guitarras ainda mais rasgantes, a bateria cada vez mais possante, as linhas de baixo cada vez mais pegajosas, e os vocais... sem comentários. 

O conteúdo lírico não sofreu, nem evoluiu, variando majoritariamente entre os clichês do blues, (que caíam bem nas vozes dos medalhões do Delta Blues, mas que me soaram um tanto quanto deslocados nas vozes de europeus brancos da década de 60), como Whole Lotta Love e The Lemon Song; ou simples versos românticos que constroem cenários pretensiosamente poéticos, como na faixa Thank You. Uma das únicas exceções a esse padrão é Ramble On, que tem seu conteúdo lírico bombardeado de referências à saga Senhor dos Anéis, franquia essa que seria citada com ainda mais constância nos álbuns posteriores do grupo, como o Led Zeppelin IV ou o Houses of the Holy, se extendendo até a carreira solo de Plant.

Muitas pessoas consideram este o trabalho mais pesado do grupo, afirmação indiscutível para qualquer um que vagou, mesmo que superficialmente, pela discografia da banda e ficou de queixo caído com a passagem alucinante que segue o solo de Heartbreaker. 

Este álbum tem tudo o que é inerente a um clássico: boas músicas (com uma excelente execução, diga-se de passagem), atitude e uma estimulante embalagem para chamar a atenção em uma vitrine (interpretem como quiser). O único quesito em que Led Zeppelin II peca é em seu conteúdo lírico, tendo suas letras repletas de clichês banais e saturados, até para a época - contudo, esse critério pode ser negligenciado caso se leve em conta a proposta da banda em si (resumindo: eles não foram, e nem tiveram o desejo de ser tão líricos quanto Dylan ou Cohen, no máximo um Blonde On Blonde, se é que me entendem).

Led Zeppelin II é uma injeção de adrenalina do início ao fim, com escassos momentos de calmaria, se reduzindo a alguns poucos minutos de What Is and What Should Never Be e Thank You. O álbum tem uma energia tão avassaladora e inebriante que Nikki Sixx, do Motley Crue, poderia ter sido facilmente reanimado no fatídico dia de sua "quase morte" caso os paramédicos tivessem tido um momento iluminado e decidissem reproduzir ao menos a primeira faixa, Whole Lotta Love, na ambulância. 

quinta-feira, 15 de abril de 2021

A injusta trajetória do Oasis na terra do Tio Sam.

 "Because maybeeeeeeeeeee" - provavelmente isto é o que se passa por vossa mente ao escutar o nome de uma das bandas mais icônicas para o Reino Unido dos anos 90 - uma das mais aclamadas dos anos 90?! Por essa musiquinha?!. A história é a mais manjada impossível: um conjunto muito bom e talentoso que possui ótimas canções, mas que é renegado a ser lembrado como um desprezível "one hit wonder" no resto do mundo por não ter tido nada mais que um único sucesso nas paradas da Billboard. Este tipo de destino trágico é mais comum do que parece, principalmente em bandas que são consideradas tipicamente inglesas, como The Kinks, que só explodiram nos EUA com "You Really Got Me" em 1964, e os contemporâneos ao Oasis, Blur, que... woo-hoo!

É bem injusto que várias bandas e artistas maravilhosos e inovadores caiam neste tipo de cilada, mas é inevitável, uma vez que os Estados Unidos, controlam tudo o que o resto do mundo vê, lê, assiste e consome com os olhos e ouvidos de maneira geral desde muito tempo. Mas voltando ao Oasis, eles parecem nunca terem se preocupado em manter e preservar uma imagem, no mínimo, abrangente ou amigável ao público norte-americano, que sempre pegou pilha por certas declarações sarcásticas e cínicas dos irmãos Gallagher a respeito do país, como a que Liam disparou a respeito da sua primeira turnê na terra do Tio Sam: "os americanos querem pessoas sujas, esfaqueando-os no palco. Eles veem caras limpos como nós, usando desodorantes, eles não entendem". Se já não bastasse o senso de humor tipicamente inglês, a banda também tinha um som tipicamente... advinha? inglês que mesmo tendo certo peso nas guitarras ainda dialogava muito bem com a cena pop da Inglaterra noventista (o famoso Britpop, que viria a se consolidar como um amontoado de gêneros, não apenas o rock, na verdade), algo que causava um brutal contraste com a barulheira ruidosa das bandas grunge (principal vertente do rock americano à época, metade dos anos 90) aclamadas pela galera do jeans rasgado por lá. 

Pois bem, voltando ao país da Rainha... a banda formada pelos Irmãos Gallagher no início dos anos 90 fez sua estreia triunfal com o single "Supersonic", que já de cara conseguiu a posição 31 nas paradas inglesas, o que já prescindia o impacto que seu debutante, o arrasa-quarteirões "Definately Maybe" de 1994, iria causar nos anos seguintes. Os caras se transformaram em astros da noite pro dia, uma digna história de Rags to Riches do rock n' roll. De repente, toda a juventude inglesa cantava os sucessos rasgantes de "Cigarettes and Alcohol" (que lembra bastante T-Rex...), "Live Forever", "Shakermaker" e "Whatever" (não inclusa no primeiro álbum, mas lançada como single no mesmo ano). Sim, caros leitores, eles emplacaram mais de 3 hits em um curto espaço de tempo até o lançamento de "Some Might Say" (outro primeiro lugar), o single que enganchava o segundo álbum "(What's the Story) Morning Glory?" de 1995. 

E então, o sucesso do conjunto no Reino Unido era avassalador, eles estavam nas capas de jornais por lá, no rádio, nas televisões, nos tabloides (um veículo que a banda meio que pulverizou), tudo isso graças, obviamente, às músicas do segundo álbum, que incluam os clássicos "Don't Look Back in Anger", "Roll With It", "Some Might Say", "Morning Glory", "Champagne Supernova", e é claro, "Wonderwall"; mas também à atitude dos Irmãos, com suas declarações polêmicas, postura e devassidão típica do rock n' roll estampada e pública para todo o país por todos os meios de comunicação possíveis.

A banda viveu os seus dias de ouro no meio dos anos 90, muitos afirmam que o ápice, o topo de toda essa pilha de ouro foi o festival de Knebworth em 1996, em que a banda reuniu uma plateia de mais de 100 mil pessoas (125 mil, mais detalhadamente), a maior multidão do evento até os dias de hoje! Nada mal para um "one hit-wonder", não? 

Obviamente, o Oasis não iria viver de glórias para sempre. Como já dizia um grande poeta: "All things must pass", e a banda chegou ao fim em 2007, após as incontáveis brigas homéricas dos dois irmãos que fundaram a banda. Mas entre esse tempo, o grupo lançou discos memoráveis e que ainda fizeram sucesso no Reino Unido, como o "Be Here Now", de 1997, "Standing on the Shoulder of the Giants", de 2000, entre outros singles também. 

Ademais, o Oasis continua sendo um dos grupos mais bem vendidos do Reino Unido e do mundo (com 50 milhões) com o disco mais vendido da década de 90 no país, e segue sendo celebrada por seus discos que se tornaram o clássico de uma geração de jovens e que só é negligenciada a um mísero "one-hit wonder" por pessoas que não entendem nada de música e, muito menos, da banda em si.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

5 discos ESSENCIAIS para compreender o BRock dos Anos 80 | Lista

Todo mundo que sabe, pelo menos, o básico da história do Rock nas terras tupiniquins ou pelo menos conhece o mínimo que seja de Música Popular Brasileira tem conhecimento que, nos anos 80, o Rock virou moda no Brasil. Várias bandas começaram a pipocar em todas as partes do país (em todas mesmo), as revistas, a televisão, o rádio não falava de outra coisa e tratava até com certa estranheza o movimento de música estrangeira que vinha tomando conta da cabeça da juventude brasileira da época. Conjuntos como Barão Vermelho, Legião Urbana, RPM, Paralamas do Sucesso, Gang 90 e as Absurdettes, Blitz, Titãs, Kid Abelha, Ira! entre outras possuíam alta popularidade naqueles dias. Sem contar os artistas solos como: Lulu Santos, Lobão, Guilherme Arantes e companhia. Tendo em vista isso, hoje vamos falar dos discos que, para mim, eu considero essenciais para entender o que realmente foi esse movimento e, pelo menos, entender as facetas integrantes do mesmo.

Antes de começar a matéria, gostaria de freezar que, esta lista não está em uma ordem específica de importância. Como o próprio título diz, é apenas para compreender o movimento de Rock Brasileiro que ocorreu nos anos 80, mostrando as facetas que rondam o espectro da época com uma dose de acidez crítica em cima dos discos.

05 - As Aventuras da Blitz: Blitz (1982)
 
Music on the Run: Discos para história: As Aventuras da Blitz, da Blitz  (1982)

Ai ai! Se imagine em uma manhã de sol, você está a caminho da praia com a sua tanga e um rádio de pilha, provavelmente, a trilha perfeita para esse tipo de situação é este disco! O álbum de estreia da Blitz, banda formada no Rio de Janeiro em 1982 pelo Evandro Mesquita (vocalista) e Lobão (baterista), foi importantíssimo para o pontapé inicial no movimento conhecido como BRock. O álbum e, principalmente, o sucesso irritante, ingênuo e astronômico do single "Você não Soube me Amar" abriram portas para várias bandas que vieram depois, por conta do reconhecimento das gravadoras de que bandas de rock no Brasil poderiam render muita grana.  Vale lembrar que, este disco rendeu à banda capa da Veja, elogios da Rita Lee, aparição no Fantástico... ou seja, o pacote completo de sucesso no Brasil oitentista.

Este disco nos traz a faceta da New Wave alegre do The B-52s, também incorporada pelos paulistas da Gang 90 e as Absurdettes, e acima de qualquer crítica, um disco importantíssimo do movimento.


04 - O passo do Lui: Os Paralamas do Sucesso (1984)


Como esquecer dessa, na época, ainda cópia tupiniquim de The Police? Por mais que não seja um disco excepcional, não apresenta muita inovação no som da banda desde o primeiro disco "Cinema Mudo" de 1983, possui clássicos inegáveis que emulavam o Two Tone, Reggae e Ska que vivia seu revival no Reino Unido que ainda hoje abalam qualquer festinha de garagem como "Óculos", "Fui Eu", "Ska", "Meu Erro", "Romance Ideal", "Me Liga" e a parceria com o Lulu Santos "Assaltaram a Gramática". O disco representou mais uma vez que o Rock poderia ser sim comercializado aqui no Brasil e foi com ele que o grupo brasiliense se destacou indo a frente do movimento de Rock Brasileiro dos Anos 80, até 86, quando perdeu o lugar para a Legião Urbana (ainda vamos chegar lá).

03 - Maior Abandonado: Barão Vermelho (1984)

  Maior Abandonado de Barão Vermelho : Napster
 
Um dos meus discos e banda predileta de toda essa leva de bandas novas que os anos 80 trouxeram. O "Maior Abandonado", o terceiro disco da banda Barão Vermelho, formada no começo da década no Rio de Janeiro, é bastante importante por trazer ao mainstream da época uma boa quantidade de Rock "cru", ainda que a qualidade de gravação acabe com toda a crueza que o disco pudesse proporcionar, contrastando com a New Wave à la B-52's da Blitz; um funkeado imitando o que acontecia com os Stones no "Undercover", "Some Girls" e "Tatoo You" e algum blues, como na música "Eu não amo ninguém". O disco possui clássicos do repertório da banda como a faixa título, "Baby Suporte", "Bete Balanço", que, particularmente, eu acho parecidíssima como "Tie You Up (The Pain Of Love)", "Por que a gente é assim" e "Milagres". Por mais que não tenha tantas inovações, o disco continua sendo emblemático para a carreira da banda. Os riffs de guitarra, as letras que retratam o estilo boêmio e o vocal rouco de Cazuza, as linhas de baixo swingadas e até as roupas e estilo artístico do álbum retratam bem o que foram os anos 80. O álbum, obviamente foi para o topo das paradas de sucesso, e rendeu à banda Globo de Ouro, música no Fantástico e tudo mais.

02 - Jesus não tem dentes no país dos banguelas: Titãs (1987)


Eu sei, eu sei. Todo mundo quando fala de discos que definiram o rock oitentista brasileiro SEMPRE coloca, para os Titãs o célebre "Cabeça Dinossauro" de 86. Estou certo ou não? Parece que todo mundo só conhece este disco dos Titãs dos anos 80, e simplesmente esquece o grande clássico que é o "Jesus não tem dentes no país dos banguelas" do ano seguinte. Eu, particularmente, de tanto ouvir o disco que tem uma pintura de Leonardo DaVinci na capa me saturei dele e vou falar do "Jesus..." pois é bem mais diversificado e nos dá um panorama ainda maior da Rock da época.


Os Titãs é a banda que representa o Punk Rock na lista. O gênero foi muito difundido principalmente entre as bandas, também de São Paulo, como é o caso dos próprios Titãs. O grupo gigantesco formado por mais de 5 pessoas chegou ao sucesso comercial muito cedo, ainda em 1984 eles haviam estourado o hit  "Sonífera Ilha", que como o próprio nome diz também dá sono de tão monótona que a música é. Mas, só chegou realmente a ter um álbum inteiro sendo escutado por todo o país com o "Cabeça" de 86. 


Falando do álbum título deste tópico, ele possui alguns hits nacionais e que até hoje são lembrados, tanto nos rádios e Spotify dos fãs de mais de 5o anos da banda quanto pelos mais jovens em protestos ou faculdades. A música "Comida", que possui uma bateria eletrônica e uma linha de baixo que dita praticamente toda a canção foi largamente utilizada em protestos nos anos 80 por sua letra concreta que apenas clama pelo básico para a população. Além dessa papagaiada eletrônica, também temos porradas como "Lugar Nenhum", "Desordem", cuja a letra continua muito atual, infelizmente.


01 - Legião Urbana - Dois (1986)


Acredito que você, caro leitor, já estava esperando de que um disco da maior banda brasileira dos anos 80 iria entrar nesta lista de uma forma ou outra, até porque é impossível negar sua notória influência em tudo o que veio depois. Confesso que fiquei um pouco em dúvida em qual álbum deles iria ocupar uma posição aqui, portanto resolvi escolher de coração pelo meu favorito da discografia deles (aliás, quem é que vai dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração?). O "Dois", lançado em 1986, meio que continuava o que a banda começou em seu debutante. Apostando em uma sonoridade típica das bandas inglesas de pós-punk, como Joy Division, Gang of Four e, principalmente, The Smiths, Renato canta de maneira magistral para uma juventude perdida e desesperançosa em meio ao caos urbano típico de um país que havia recém-descoberto a liberdade após os 21 longos anos de um Regime Militar que deixou de legado nada mais que uma economia em frangalhos e traumas doloridos na sociedade da época.

Assim como todo disco da Legião, este é recheado de hits radiofônicos como "Daniel na Cova dos Leões", "Quase Sem Querer", que parece ter sido inspirada por "Ask" da banda de Morrissey, a indigerível "Eduardo e Mônica", a sensacional "Tempo Perdido", e a  pesarosa "Índios". 
 
Ufa! Esta lista foi imensa, não pensava que iria ser um trabalho tão árduo escolher apenas míseros 5 álbuns que pudessem englobar o universo extremamente variado que foi o cenário roqueiro do Brasil anos 80! Faltaram muitos discos, eu sei, como o "Nós Vamos Invadir Sua Praia" do Ultraje a Rigor, de 1985, "Ronaldo foi pra Guerra", do Lobão, bolachões do Eduardo Dussek, João Penca e os Miquinhos entre outros, mas tentei generalizar ao máximo para que pudesse trazer todas as influências mais vitais de toda esta cena maravilhosa.

domingo, 11 de abril de 2021

Sobre a estrada surreal percorrida por Bob Dylan em Highway 61 Revisited...

Poucos álbuns representaram o espírito de uma geração como "Highway 61 Revisited" da lenda norte-americana Bob Dylan. Além de ser uma das conceituações mais fidedignas ao que borbulhava no cenário político e social dos anos 60,  o disco também se destaca na história da música pop por suas letras cobertas de referências à poesia surreal de Rimbaud, pós-modernismo, canções de blues, e cultura beat emergente naqueles tempos. 

Aliás, o disco que inicia com o hino, o clássico incontestável de todos os tempos "Like A Rolling Stone" não poderia ser considerado nada menos do que imortal, não é verdade? Além do mais, este é o disco que carrega alguns dos grandes clássicos da carreira de Dylan e também finalizou o processo de eletrização total deste, que mesmo já tendo dado alguns sinais no disco anterior "Bringing It All Back Home" do mesmo ano, ainda não tinha se finalizado por completo. Esta inserção das guitarras elétricas no, até então, Rei da Música Folk, agradou muitos, assim como desagradou outros, mas, ao menos, nos rendeu deleites sonoros como o também inigualável "Blonde On Blonde", de 1966 (outro maravilhoso disco que merece uma resenha).

"Highway 61 Revisited" é um daqueles álbuns que você ouve sem interrupções. As letras certeiras e, as vezes, viajadas, a voz arenosa de Bob, as guitarras rasgantes de Bloomfield e os órgãos incendiários de Al Kooper te mantém vidrado e incitado a explorar o universo que cada faixa tem a lhe oferecer, desde a primeira até a última. 

 Aqui, destaco o que eu considero alguns dos melhores momentos do álbum: "Tombstone Blues", com uma letra surreal e urgente, característica bastante evidenciada em seu arranjo; "It Takes a Lot To Laugh, It Takes a Train To Cry", um dos meus blues rock prediletos escritos por Dylan e que, até os dias atuais, levanta questionamentos a respeito do real significado de sua letra (como toda música do artista em questão), com teorias de fãs que transitam entre a literalidade pífia e o subjetivismo extremo que nos faz refletir se até o simples ato de andar de trem, citado no início da canção, é, de fato, uma simples viagem ou algo a mais; "Ballad of a Thin Man", uma música pairada por uma névoa sombria intensificada pelas notas do órgão elétrico de Kooper, a letra é uma crítica ácida aos jornalistas engomadinhos e quadrados que vinham se aventurar e julgar o incompreensível mundo dos revolucionários cabeludos, que nutriam uma relação de desprezo mútuo; "Just Like Tom Thumb's Blues", mais uma música influenciada pelo blues e que narra de maneira bem humorada as aventuras de Bob em Juarez, México, indo desde mulheres famintas até drogas e autoridades policiais; tudo isso para o ouvinte desaguar em "Desolation Row", uma das mais aclamadas (e longas) canções do icônico letrista, que carrega em si um aspecto modernista e surreal, quase que plástico característico desta fase. 

Enfim, faltou citar algumas canções, como a sensacional "From a Buick 6" ou a faixa-título, mas daria um texto muito longo, e como aqui o objetivo é apenas homenagear o álbum, acredito que falei até demais. Com isso, concluímos que "Highway 61 Revisited" é uma obra-prima que relata de forma magistral o que rolava em seu tempo e que deve ser ouvida até os dias atuais.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Afinal, onde fica "A casa do sol nascente" de Nova Orleans?

Desde que eu ouvi a versão de 1964 deste som gravada pela banda The Animals, eu não conseguia parar de pensar e teorizar sobre qual seria a real localização ou o que de fato era esse lugar citado no grande hit sessentista "The House of Rising Sun", uma música rondada de mistérios e especulações que até hoje se veem quase impossíveis de se confirmarem.

Para começar, vou introduzir a você essa maravilha, para vos que nunca ouviu essa obra prima do rock n' roll dos anos 60. Preste atenção principalmente na letra, mas também no solo de órgão que eu acho simplesmente sensacional.


Bem, então, para começar essa longa jornada para tentar compreender esta música, preciso informar que até hoje não se tem notícia de seus reais compositores, e nem em que ano precisamente a mesma surgiu. Sabemos que a música, originalmente, era um blues chamado de "The Rising Sun Blues" e que, supostamente, a letra e os acordes menores teriam ganhado vida entre os anos 1700-1800, enquanto os franceses estavam ocupando a região de Nova Orleans, e alguns ainda dizem que foram os migrantes franceses que apresentaram a música ao cancioneiro popular do local, mas nada confirmado. Se entende que a música foi passada de "boca a boca", por geração em geração, na cultura popular Africana/Americana, já que não existe nenhuma gravação ou nota dessa música antes do séc.XX. 

Há diversas especulações sobre o que seria, de fato, a "casa do sol nascente". Alguns chutam que é um termo designado para pubs ingleses da época, outros relacionam à apenas a fachada do local (que poderia ter o formato de sol nascente) para justificar outras ainda mais loucas teorias que iremos falar mais para frente. Confira abaixo uma versão de 1933 do blues "The Rising Sun Blues":


Levemente diferente, não? O arranjo é muito mais blues que o da versão que todos conhecem, além da letra ter sido alterada depois de todos esses anos. Uma curiosidade intrigante sobre a canção é que, no início, a maioria de intérpretes da "The Rising Sun Blues" eram femininas! Sim, isso pode justificar muita coisa da música. Além do mais, quando pesquisamos pela letra original no Google, aparece uma versão que em vez de "poor boys" é "poor girls", além de outros versos que dão ainda mais luz à teoria de que a protagonista é uma mulher, o que daria mais sentido à letra. Confira a letra original, ou pelo menos, a mais antiga que se conhece:



Analisando essa letra, podemos notar algumas diferenças com a versão do The Animals, que por sinal, deixou a letra muito mais ambígua do que ela, de fato, é:

- É uma mulher que se arrependeu de algo que ela fez.
- Conta a história de uma mulher que tem um marido que bebe muito em Nova Orleans, e que a única coisa que ele precisa é de um baú e uma mala para, possivelmente, ir embora ou fazer negócios, muito ambíguo.
- Essa versão não cita nenhum pai que era um homem de apostas ou algo do tipo, apenas um marido bêbado.
- Tem mais versos de lamentação pela vida que ela tomou nesta versão.

Ou seja, essa versão é muito mais simples, curta e direta que a da versão mais popular. Nesta versão, podemos ver que há também semelhanças com a versão sessentista, como o de ela ter o pé na estação e outro no trem, de o eu-lírico dizer que vai passar a vida inteira com a bola e corrente na Rising Sun. Com isso, podemos tentar tirar algumas conclusões:

A letra original fala de uma moça que se desviou do rumo correto que ela vinha seguindo aconselhada pela sua mãe e se casou ou está em relacionamento sério com um bêbado, que fica andando pela cidade e bebendo muito. Ela tenta fugir em um trem, mas por alguma razão, talvez a questão moral cívica da época, resolve ficar com seu marido com uma bola e corrente, ou seja, uma metáfora para estar presa no matrimônio, e "passar o resto de sua vida" na Rising Sun, que aqui podemos supor que é um bar, um pub ou um prostíbulo, talvez. Essa versão é muito mais simples, não? E o pior, é que esta versão faz sentido quando vemos os pubs e bares ingleses de Nova Orleans da época, que neste abaixo, por acaso, possui em suas janelas o formato de um sol nascente!

The Fascinating History of New Orleans' Oldest Bar

Matamos a charada, não?! 

Eu sei que há trilhões de teorias que, por exemplo, a Rising Sun poderia ser uma prisão feminina (cujo o eu-lírico teria ido parar lá por assassinar seu pai ou marido apostador), ou simplesmente um prostíbulo, um bordel (já que há indícios de bordéis e bares com o nome de "sol nascente" naquela época em Nova Orleans), e há também quem diga que o local era um retiro de freiras (aquele lugar onde as meninas se preparam para serem freiras, sabe?). Anyroad, a música continua sendo muito discutida e fascina a muitos (inclusive eu) por ser um pedaço da história norte-americana documentada em forma musical cuja sua origem continua sendo um mistério, mesmo após todos esses anos.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Os Dândis do Rio Grande do Sul.

Confesso que escrevo este artigo por conta da minha paixão inabalável pela banda Engenheiros do Hawaii, um dos meus primeiros contatos com o Rock Gaúcho que enfervecia nos anos 80 e continua tendo uma cena que perdura até os dias atuais. Me lembro bem das primeiras vezes em que ouvi as letras do Humberto Gessinger, o baixista e letrista da banda. Me lembro como pensei que as letras eram muito bem trabalhadas e guardavam de sentidos que, na época, eu sendo apenas uma criança não consiga compreender muito bem. Mas, quando comecei a crescer, comecei a me identificar cada vez mais com o grupo e, consequentemente, minha admiração pela banda aumentou cada vez mais até chegar ao ponto de, atualmente, eu considerar a minha banda brasileira predileta, disputando de maneira acirrada com Legião e Barão. Mas, essa introdução sentimentaloide era somente para conduzir para eu falar, em um papo mais livre, sobre meu álbum predileto dos Engenheiros: A revolta dos dândis (1987).


Entre os outros e vocês

Antes de realmente falar do álbum, vou falar um pouco do contexto que este álbum veio ao mundo. Era 1986, quando os Engenheiros fazem sua estréia solo, pois, a banda já havia participado em 85' de uma coletânea de iniciantes grupos de rock que emergiam no RS, a Rock Grande do Sul, onde não só apenas os estudantes de Arquitetura estrearam mas, também Os Replicantes, TNT, Garotos de Rua e DeFalla, bandas essenciais para o Rock Gaúcho da época. O disco de estreia "Longe Demais das Capitais" (1986) até que foi bem para uma banda que estava bem longe das capitais e polos urbanos que produziam os artistas do momento (O Sudeste, em geral) e estava apenas começando. Eu, particularmente, amo este primeiro disco da banda, tanto que, algumas de minhas faixas prediletas deles está neste disco como: "Crônica" (que acho uma letra genial e ainda muito atual), "Toda Forma de Poder" (não preciso comentar nada, só um magnífico clássico), "Sopa de Letrinhas", "Todo Mundo é uma Ilha" e por aí vai. Ouso dizer até que este álbum é um dos que mais retratam o período em que foi escrito, com citações à Guerra Fria, a polaridade entre poderes (Fidel e Pinochet tiram sarro de você que não faz nada) e um pouco do cotidiano e personalidade do jovem da época, vide "Todo Mundo é uma Ilha" ou "Eu ligo pra você". Pois bem, a primeira música do álbum virou até tema de novela global, "Hipertensão", do mesmo ano. Apesar de todo esse sucesso, por conta de divergências com a banda, Marcelo Pitz, o baixista do disco sai e Humberto fica mais a vontade para tomar o baixo para si, se concentrar cada vez mais nas letras e chamar o guitarrista Augusto Licks, que já era mais velho que a banda, para assumir a guitarra.


Por conta dessa mudança na banda, o segundo disco chegou com uma sonoridade bem menos pesada que o primeiro, apostando cada vez mais em linhas de baixo pegajosas (no bom sentido) e uma carga lírica cada vez mais intensa. Por isso, o disco tem uma sonoridade bastante Pós-Punk, me lembrando muito Joy Division, começo do New Order, Gang of Four, PIL e toda aquela ruma de bandas inglesas que vieram do início e meio dos anos 80. O disco já abre com um grande clássico: "A Revolta dos Dândis I", que nos apresenta diversas dualidades e referências ao livro de Albert Camus, "O Estrangeiro". Aliás, Camus foi muito importante para essa obra, pois, foi um dos capítulos de seu livro que deu nome ao álbum. Em seguida temos a "power-ballad" (sim, entre aspas) "Terra de Gigantes", uma das minhas prediletas, que, de acordo com o próprio Humberto, brinca um pouco com o pensamento punk vigente em várias bandas da época, de ser, supostamente, "contra o sistema" sendo parte e contribuindo para o mesmo. Seguindo possuímos o inesquecível clássico "Infinita Highway", a favorita do público que é, uma das minhas menos prediletas do álbum como um todo (perdão Humberto). Com isso, possuímos ainda a melancolia de "Refrão de Bolero", com a rima mais 'sacana' que já ouvi em toda minha vida mas, muito boa a canção, uma das melhores da obra; ainda nessa linha, possuímos choques de realidade como "Além dos Out-Doors" e "Filmes de Guerra, Canções de Amor", que CONTINUAM SENDO ATUAIS, felizmente ou infelizmente. E para finalizar nesta análise mais aprofundada das faixas, a minha favorita: "Vozes", uma das que eu mais me identificava e gostava quando era adolescente! A letra de "Vozes" é de uma profundidade e sinceridade que eu nunca tinha ouvido em quase nenhuma banda brasileira até o momento, uma verdadeira obra de arte da música brasileira. Obviamente, temos outras músicas ótimas como "Guardas da Fronteira", "Quem tem pressa não se interessa" (EM ANDAR RÁPIDO DEMAAAAIS) e "Desde Aquele Dia".


Mas, enfim! Um álbum incrível que continua sendo necessário e relevante na nossa realidade atual. Principalmente, entre pessoas que nem eu que, continuam se sentindo estrangeiros e passageiros de algum trem que não passa por aqui e não passa de ilusão...


BÔNUS: encontrei na Internet esta pérola que eu mesmo não havia ouvido até então, as demos do álbum "A Revolta dos Dândis"! E de quebra, ainda vou colocar aqui a demo do "Longe Demais das Capitais" que eu já conhecia desde os meus 11 anos! Esses links são do YouTube, aproveitem!


Demos do Revolta: https://www.youtube.com/watch?v=1m-fJIRct3E

Demos do Longe Demais das Capitais: https://www.youtube.com/watch?v=qOvbB6cVsw4

sábado, 30 de maio de 2020

A ascenção e queda de Ziggy Stardust completam 48 anos! | Review da Vez

Este ano, dia 16 de junho, vai completar 48 anos que o rock star alienígena mais famoso e reconhecido do mundo, Ziggy Stardust, fez a sua glamorosa estréia na pele de David Bowie no álbum "The Rise and Fall Of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars" de 1972. Para compreender este disco que se tornou um clássico absoluto e relevante, precisamos compreender, não só, o que se passava na cabeça genial e inovadora de Bowie naquele início de década, quanto também o que se passava no mundo, tanto no meio musical, quanto no meio real mesmo... e para isso, vamos viajar para o Reino Unido do século passado...

The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars ...

No ano de 1971, ou seja, um ano antes da gravação e lançamento oficial do álbum de Ziggy, Bowie estava trabalhando em outro álbum que viria a ser um álbum bem elogiado pela crítica da época chamado Hunky Dory, um álbum bem mais puxado ao Art Rock, tendo pouquíssimas referências ao rock n' roll cru que viria em seguida, mas, durante as gravações do mesmo, David já possuía em mente algumas músicas como Moonage Daydream ou Hang on to yourself que fariam parte de seu próximo trabalho. Além disso, o desejo de Bowie por fazer algo diferente, algo mais elétrico e alto, vinha das observações da cena de rock na época, que estava cada vez mais cedendo às novas bandas que produziam o que chamavam, na época, de heavy metal, hard rock, ou seja, uma sonoridade mais distorcida e pesada. Tais bandas como Led Zeppelin, Deep Purple, Black Sabbath, Cream, Alice Cooper, Jimi Hendrix Experience estavam exercendo uma ampla influência no gênero e eram as "novidades" da época, se podemos chamar assim. Com isso, Ziggy Stardust, um alienígena roqueiro transgressor, sexualmente promíscuo e de natureza selvagem começou a ganhar forma.

O álbum, ao contrário do que muitos pensam, não é uma opera-rock como, por exemplo, o Tommy do The Who; apesar de ele apresentar a história de Ziggy em faixas como a melancólica "Five Years", na qual justifica a motivação para o mesmo descer até aqui, o sucesso radiofônico de "Starman", e a última faixa do álbum, a também melancólica power ballad "Rock N' Roll Suicide", o disco vai além de simplesmente contar uma história contínua; nos dá a impressão de profundidade e intimidade ainda maior sobre a personalidade do alien, em faixas como "Moonage Daydream", "Suffragette City" e a própria "Ziggy Stardust" nos dizem muito mais sobre a personalidade do mesmo do que simplesmente uma história. De maneira geral, o álbum é de hard rock, com alguns momentos épicos, especificamente no início e no final. 

Riffs de guitarra estridentes que incendeiam os ouvientes, letras que falam de paz, amor, sexo, festas e rock n' roll, uma voz esganiçada e exagerada com muito glamour e atitude - assim, podemos definir o álbum de Ziggy Stardust. Um grande clássico que será lembrado, não somente pelas mudanças sociais que provocou (fica para outro post), mas, também por ser profético e afrente de seu tempo em vários momentos. Nem preciso citar a grandiosidade de David Bowie na cultura pop, não? A sexualidade difusa de Ziggy, que se confunde com a da Geração Z, os sons experimentais e até mesmo, influências a curto prazo (vide a onda Glam nos anos 70 e 80, com bandas como T.Rex ou Motley Crue) fazem com este álbum seja lembrado mesmo quase 50 anos de seu lançamento! Viva Ziggy Stardust! Viva David Bowie!