Em 1969, o sonho dos flower boys e flower girls já havia acabado. O Festival de Woodstock já tinha acontecido e deixado como legado milhares de jovens ansiando por um futuro repleto de flores, amor e compaixão, enquanto esses enlameavam-se ao som de boas músicas e sob o efeito de doses cavalares de LSD; Jimi Hendrix e Janis Joplin morreram de overdose (predestinando o futuro de Jim Morrison), a morte de Sharon Tate por parte da família Manson também. Enfim, todo aquele teatro hippie, completamente alienado da realidade, diga-se de passagem; foi completamente incendiado pelas chamas de um novo tempo que estava começando em todos os âmbitos, inclusive o musical.
Se os Beatles foram coroados como os porta-vozes da juventude "paz e amor", os responsáveis pela expansão sonora que abalou e definiu a década de 60, os caras do Led Zeppelin foram elevados à categoria de deuses mitológicos que demoliram quase tudo o que restava da década passada. Aquelas músicas psicodélicas regadas à viagens lisérgicas e coloridas derreteram e deram lugar aos riffs de guitarra arrasa-quarteirão (por conta do grande Jimmy Page), solos avassaladores de 30 minutos (yes, Bonham!) servindo como palco de fundo para letras predatórias e agressivas com altíssimo teor sexual surrupiadas, em sua maioria, do blues, de uma forma nunca antes vista.
O primeiro disco da banda, o Led Zeppelin (1969), já causava esse impacto nuclear, levantando a sobrancelha até de músicas de blues rock renomados da época (como Eric Clapton, como exemplo) pelo penetrante volume dos amplificadores e sonoridade, com um destaque especial para a bateria, nunca antes gravada com a ambiência necessária para torná-la um instrumental tão vital quanto a guitarra, por exemplo. No entanto, por mais que o álbum tenha impressionado muitos, também atraiu um certo desdém, especialmente da crítica e de certos artistas, que acusava a banda de ser, simplesmente, mais uma bandinha britânica com som calcado no blues (nenhuma novidade à época), com inumeráveis plágios (sim, os três primeiros são cheios deles) ou uma versão desanimada do Cream.
Apesar de tudo, o primeirão vendeu bem, especialmente nos EUA, levando-o ao primeiro lugar da Billboard.
E então, veio a continuação no mesmo ano: o Led Zeppelin II (1969). Já imersa em turnês ininterruptas na América, drogas, quartos de hotéis e groupies, a banda teve pouquíssimo tempo entre as datas agendadas e seus compromissos para planejar uma continuação à altura da sua estonteante estreia, mas o que deu para espremer desse cenário caótico já foi o suficiente para compor e gravar um dos melhores álbuns de rock da história.
O que o Led Zeppelin fez nesse álbum foi, trocando em miúdos, ampliar e continuar a revolução que eles haviam começado anteriormente. Os riffs estavam ainda mais pesados, as guitarras ainda mais rasgantes, a bateria cada vez mais possante, as linhas de baixo cada vez mais pegajosas, e os vocais... sem comentários.
O conteúdo lírico não sofreu, nem evoluiu, variando majoritariamente entre os clichês do blues, (que caíam bem nas vozes dos medalhões do Delta Blues, mas que me soaram um tanto quanto deslocados nas vozes de europeus brancos da década de 60), como Whole Lotta Love e The Lemon Song; ou simples versos românticos que constroem cenários pretensiosamente poéticos, como na faixa Thank You. Uma das únicas exceções a esse padrão é Ramble On, que tem seu conteúdo lírico bombardeado de referências à saga Senhor dos Anéis, franquia essa que seria citada com ainda mais constância nos álbuns posteriores do grupo, como o Led Zeppelin IV ou o Houses of the Holy, se extendendo até a carreira solo de Plant.
Muitas pessoas consideram este o trabalho mais pesado do grupo, afirmação indiscutível para qualquer um que vagou, mesmo que superficialmente, pela discografia da banda e ficou de queixo caído com a passagem alucinante que segue o solo de Heartbreaker.
Este álbum tem tudo o que é inerente a um clássico: boas músicas (com uma excelente execução, diga-se de passagem), atitude e uma estimulante embalagem para chamar a atenção em uma vitrine (interpretem como quiser). O único quesito em que Led Zeppelin II peca é em seu conteúdo lírico, tendo suas letras repletas de clichês banais e saturados, até para a época - contudo, esse critério pode ser negligenciado caso se leve em conta a proposta da banda em si (resumindo: eles não foram, e nem tiveram o desejo de ser tão líricos quanto Dylan ou Cohen, no máximo um Blonde On Blonde, se é que me entendem).
Led Zeppelin II é uma injeção de adrenalina do início ao fim, com escassos momentos de calmaria, se reduzindo a alguns poucos minutos de What Is and What Should Never Be e Thank You. O álbum tem uma energia tão avassaladora e inebriante que Nikki Sixx, do Motley Crue, poderia ter sido facilmente reanimado no fatídico dia de sua "quase morte" caso os paramédicos tivessem tido um momento iluminado e decidissem reproduzir ao menos a primeira faixa, Whole Lotta Love, na ambulância.

Nenhum comentário:
Postar um comentário